A Paróquia São Benedito

Capela de São Benedito

Entre os templos católicos de Campinas, o consagrado a São Benedito nos oferece uma curiosa história a respeito de sua fundação: ela é conhecida através da tradição e pelas ocorrências que se deram de há meio século, para cá, mais ou menos.

O caminhante lá pela década de 1860-1870 que viesse a Campinas pela estrada que ligava este município (como até agora) com o de Belém de Jundiaí, que hoje se denomina Itatiba, entrando pelas Campinas Velhas e vindo por esta via pública, que mais tarde passou a chamar-se rua “Dr. Moraes Salles”, ao passar pelo centro da atual rua Irmã Serafina, lobrigaria na parte alta de uma pequenina construção – quatro paredes cobertas de telhas, com uma porta estreita, e a face voltada para o lado da entrada da povoação.

Era um jazigo mandado construir por um sacerdote, cônego Melchior Fernandes Nunes de Camargo, da Sé de São Paulo.

O cônego Melchior aqui veio residir e aqui faleceu, sendo sepultado neste recinto.

Ali foram também enterrados mais: duas irmãs suas; o abastado fazendeiro Antônio Manoel Teixeira, que era proprietário das fazendas “Saltinho”, “Morro Alto” e outras, deste município; D. Manoela Joaquina de Oliveira, primeira esposa do major Joaquim Quirino dos Santos, que deixou numerosa prole, figurando entre seus filhos, o benemérito campineiro Bento Quirino dos Santos. Outras inumações ali foram feitas, além dessas.

As sepulturas nesse jazigo custavam a importância de uma dobra (moeda de ouro no valor de 12$800) que era aplicada a esmolas para missas por almas dos cativos, cujos cadáveres haviam sido sepultados nesse local; ali só se enterravam os míseros escravos, que iam nessa última morada encontrar o seu único descanso, após longo martírio do cativeiro. Denominava-se por isso, “cemitério dos cativos”

Há muitos anos, quem passava pelo lado direito da igreja, quase em frente da mesma, tinha ensejo de ver, à flor da terra que as enxurradas aos pouco foram cavando no decorrer do tempo, muitos restos de ossos, muito brancos, esquirolas pulverizadas, que, que ainda apresentavam as linhas e formas de esqueletos humanos.

É, pois, no ponto em que existira o “jazigo do Cônego Melchior” que hoje se acha a igreja de que é orago São Benedito.

Foi nesse local que mereceu a preferência do seu iniciador, de um velho negro africano, o Mestre Tito como lhe chamavam, para aí ser construída aquela igreja.

O Mestre Tito (Tito de Camargo Andrade, era o seu nome), gozava de muita estima e popularidade nesta terra. Curandeiro, conhecia como ninguém raízes de plantas medicinais, das nossas matas e perito aplicador de sanguessugas, era muito procurado, como tal, por médicos daquele tempo, que preconizavam, como maravilhoso, esse recurso terapêutico, em certas moléstias.

Pondo em ação a sua idéia, requereu mestre Tito à Câmara Municipal concessão do terreno acima mencionado, para aquele fim religioso. Foi atendido, enchendo-se-lhe a alma de doce e radioso contentamento.

Munido de tal concessão, dirigiu-se à autoridade eclesiástica, em São Paulo, solicitando a precisa permissão para levar a efeito o seu grande desejo de devoto de São Benedito. Obteve a almejada provisão do bispo diocesano. Os seus planos iam em mar de rosas.

Abramos um pequeno parêntesis, para dizermos, em rápidos traços, quem era o Mestre Tito.

Viera muito moço do seu país distante, África, trazido como escravo e aqui foi vendido por um traficante qualquer, vindo a ser propriedade do capitão-mór Floriano de Camargo Andrade, que foi tronco de muitas famílias campineiras. Conquistando a estima do seu senhor, mestre Tito conseguiu liberta-se, adotando então o sobrenome de Camargo Andrade.

Tendo em mão a necessária licença, tratou de agir, a fim de realizar o seu ideal, empregando tenazmente os maiores esforços.

Pedia donativos aqui e ali, já por meio de subscrições, já de porta em porta, percorrendo as ruas da cidade, revestido de opa, sob os raios ardentes do sol. Não descansava, não desanimava.

Afinal, vencendo corajosamente enormes embaraços, conseguiu levantar as paredes, cobrir de telhas o edifício, o seu sonho de devoção sincero.

Anos decorreram, e o Mestre Tito continuava sempre agitando a sua idéia. Sendo então, vigário de Campinas o Padre José Joaquim de Souza Oliveira, organizou-se a irmandade de São Benedito. Ambos lhe deram mão forte nesse religioso empreendimento.

Não conseguiu, porém, o velho devoto ver consumado o seu projeto. Alquebrado pela velhice de seus oitenta anos, sentiu-se impossibilitado de prosseguir na sua simpática tarefa. Uma grave enfermidade o vitimou no dia 29 de janeiro de 1882.

Quando sentiu que a vida se lhe ia fugindo, e se aproximava o termo de sua jornada pelo mundo, requereu à Câmara Municipal permissão para satisfazer a sua última vontade: ser enterrado dentro da igreja que ele estava construindo. A Câmara estudou o caso e, para não ir de encontro à lei, negou-lhe a permissão solicitada.

Carlos Ferreira, o delicado poeta das Rosas Loucas, traçando na “Gazeta de Campinas”, a notícia do falecimento do velho e estimado africano, disse entre outras coisas, o seguinte: “Era uma cidadão estimável o Mestre Tito, digno de um aperto de mão de todos os que compreendem que, neste mundo, há dois grandes títulos de nobreza para o homem: a honestidade e o trabalho, mesmo quando esse homem tenha sido escravo”.

Conseguira a sua liberdade graças a incomensuráveis sacrifícios pecuniários, alcançou também libertar parentes seus.

Após o falecimento do iniciador das obras da capela, ficaram estas paralisadas e nessas condições se conservaram durante anos, até que os sentimentos religiosos de uma respeitável senhora, D. Ana de Campos Gonzaga, vieram ao encontro desse importante cometimento. Tratou ela, com extraordinária dedicação, de promover os meios necessários para a obtenção de recursos, realizando leilões de prendas, saraus musicais e outras festas que atraiam a atenção religiosa e profana das famílias. A esse tempo foi organizada uma comissão, auxiliada por diversos devotos, que se empenhou nessa campanha, coadjuvando os esforços da referida senhora. Compunha-se essa comissão dos Srs. Francisco Bueno de Miranda, Dr. Ricardo Gumbleton Daunt e Francisco Alves de Almeida Salles.

Foi convidado o moço engenheiro arquiteto Dr. Francisco de Paula Ramos de Azevedo, então recém vindo da Bélgica, onde se diplomara, para levantar planta da fachada do templo, incumbência essa que o distinto profissional aceitou, desempenhando-a gentilmente.

As obras continuaram e ficaram concluídas, em 1885. No dia 11 de outubro daquele ano, efetuaram-se com muita solenidade as festas inaugurais da nova igreja, a que afluíram muitas famílias e povo. Achava-se aqui a passeio o venerando bispo do Ceará D. Joaquim José Vieira, o benemérito fundador da nossa Santa Casa e por ele foi sagrado o novo templo, havendo em seguida com grande pompa as cerimônias adequadas, sendo executada uma missa composta pelo maestro Presciliano Silva, que regeu a orquestra.

Estava realizado o sonho do Mestre Tito, a quem a morte não permitiu o prazer imenso de assistir a esse ato consolador para o seu espírito.

D. João Correa Nery, conhecedor da ação constante e profícua exercida por Mestre Tito na construção da igreja, lembrou-se de galardoar a memória daquele modesto obreiro da religião e, nesse sentido fez apresentar a idéia de uma homenagem em reunião da Irmandade de São Benedito: a de se colocar o retrato do grande  benemérito que, dentro de sua humildade de ex-escravo, dera princípio à construção da referida igreja, aplaudindo-se desta arte os sentimentos religiosos do Mestre Tito. Encarregado pelo saudoso bispo, muito se dedicou nesse particular, o Sr. Elias de Oliveira Sabóia.

Com dificuldade foi obtida uma fotografia, em curioso arquivo de um ilustre campineiro, residente em São Paulo, para a precisa reprodução e ampliação.

A homenagem foi prestada. Honra uma das dependências do templo o retrato do seu saudoso fundador, ladeado de dois outros, o de D. Ana de Campos Gonzaga e de Francisco Bueno de Miranda.

Eis aí a largos traços a notícia histórica desse ato religioso nascido do espírito de uma modesta criatura, que veio de condição humilíssima para o convívio social, conseguindo pelo seu procedimento conquistar gerais simpatias que o cercaram até a morte.

31 de março de 1926 
Amaral, L. Campinas – recordações – Secção de obras d´ “O Estado de S. Paulo”, São Paulo, 1927.

Paróquia São Benedito

A Paróquia São Benedito (Centro) foi criada em 16 de agosto de 1966 por decreto do arcebispo metropolitano, dom Paulo de Tarso Campos. No entanto, a devoção a São Benedito e a construção de um templo consagrado a ele é bastante antiga, data desde 1839. A realização dessa iniciativa deve-se ao escravo liberto Tito de Camargo Andrade, mestre Tito, como era conhecido. Mestre Tito sonhava com um templo onde os escravos se sentissem no que era seu, para louvarem a Deus como os brancos o faziam. Para isso, buscava esmolas e donativos de porta em porta. Conseguiu a concessão do terreno anexo ao jazigo do Cônego Melchior Fernandes Nunes de Camargo, junto ao cemitério de escravos. O velho devoto de São Benedito não pôde ver concretizado o seu sonho, morreu no dia 2 de janeiro de 1882. Após o seu falecimento, as obras da igreja estiveram paralisadas até que a Sra. Dona Ana de Campos Gonzaga tomou a si a enorme e difícil tarefa de concluir o templo. As obras continuaram e ficaram concluídas em 1885, sendo a nova igreja inaugurada no dia 11 de outubro. O retrato do mestre Tito encontra-se no interior do templo, ladeado pelo retrato de dona Ana de Campos Gonzaga. Em 1897, passou a funcionar, em um prédio anexo ao templo o Colégio São Benedito, primeira escola para negros no Brasil.

A atual igreja tem outra fisionomia, porque passou por grandes reformas. Em 1926, a direção espiritual da Igreja de São Benedito foi confiada à Congregação dos Estigmatinos, nas pessoas do padre Fortunato Mantovani, primeiro reitor, auxiliado por padre Júlio Sief e Irmão Luiz Abram.

A paróquia foi desmembrada  do  Curato da Catedral e, em menor parte, da do Divino Salvador. O primeiro pároco da paróquia de São Benedito, padre João Avi(CSS), tomou posse em setembro de 1966, sendo substituído, em 07/10/1968, pelo padre José M. Mayer. Em 11/03/1969, foram nomeados vigários cooperadores o padre Vicente Ramalho de Freitas, padre José Geraldo do Valle, padre Joaquim Lambert Filho, em 19/03/1969, o padre José Luiz Nagalli toma posse como pároco, sendo substituído posteriormente, em 18/03/1974, pelo padre José Maria Mayer, que teve como vigários cooperadores, em 15/03/1976, o padre Vicente Ramalho e, em 03/02/1982, o padre Francisco Alberto Mariani.

Em 31/01/1983, o padre José Luiz Nagalli volta novamente a ser o pároco e, após grave enfermidade, vem a falecer, sendo substituído pelo padre Santi Capriotti, em 07/02/1984, que teve durante seu paroquiato os seguintes vigários paroquiais: padre Mário Bisinelli, padre Nilson Batista Chagas Pinto, padre João Carlos Nogueira, padre Benedito Andrade Bettini, padre Vicente Marques de Freitas. Em 24/04/1990, tomou posse da paróquia o padre Mauro Montagnoli que, por ser eleito provincial da congregação, deixou o cargo, sendo substituído pelo padre José Antônio Mainardi, que tomou posse em 15/05/1990, dirigindo a paróquia até 12/01/1995, quando teve como substituto o padre Mário Domingos Perin. Na mesma data, foi empossado seu vigário paroquial padre Antônio Geraldo Bassi, vindo, em 09/04/1996, outro vigário paroquial, na pessoa do padre Valdir Antônio. Padre Antônio Geraldo Bassi, em 17/02/1999, torna-se, então, o pároco, tendo como vigários paroquiais o padre Nilson Batista Chagas Pinto e padre Mário Zuchetto, que permanecem até a presente data na paróquia.

Encontra-se nas cercanias da Igreja de São Benedito o Hospital Casa de Saúde Campinas e, inserida nele, uma capela, dedicada à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Ambas são patrimônio histórico da cidade, tombados pelo Conselho de Defesa do Patrimônio artístico e Cultural de Campinas (CONDEPACC). A capela existe desde janeiro de 1927, quando as religiosas da Congregação das Irmãs Missionárias do Sagrado Coração de Jesus passaram a atuar no hospital. Elas por razões superioras ali permaneceram até metade dos anos 90. O início da construção da capela se deu em janeiro de 1929 e seu término, em meados de 1933, sendo inaugurada pelo Sr. Bispo dom Francisco de Campos Barreto. Em 1940, o cav. Pedro Morgantti fez doação dos quadros ornamentais representativos da Via Sacra. As pinturas das paredes e do teto  são de Nicola Zezza, de 1960, e, a partir de março de 2003, deu-se a conclusão da restauração da capela, sob comando do restaurador Marcos Garcia, através do incansável trabalho do Grupo de Voluntários da Casa de Saúde. Foi igualmente restaurada parte do retábulo, dos painéis e anjos. Um dos grandes valores artísticos da capela são seus magníficos vitrais, fabricados pelo grande vitralista de São Paulo, Conrad Sorgenicht. Igualmente estão sendo reconstituídas as molduras que, originalmente, eram folhadas a ouro.

 

 

BIBLIOGRAFIA

VVAA. Arquidiocese de Campinas – Subsídios para a sua História, Komedi, Campinas (SP), 2004, pp. 197-199.

 

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